Entrevista: Ganâncio, candidato à re-re-re…eleição

Em mais um furo de nossa reportagem cartunístico-investigativa, conseguimos entrevistar o deputado Ganâncio, candidato do PCP (Partido do Coronelismo Pluralista) à re-re-re-re… (bom, você entendeu) re-re-reeleição pelo estado de Manquitolândia do Sul. Com 82 anos (63 só de vida pública), ele ainda mostra a mesma sede por poder, verbas e desvios — e concorre ao décimo-sexto mandato consecutivo na câmara. De seu recém reformado gabinete (cuja obra custou “módicos” 10 milhões), ele fala de sua infância pobre e de como se tornou tão querido pelo povo. Tomando uísque single malt 18 anos e comendo bruschettas (enquanto o povo continua comendo o pão que o diabo amassou), ele parece não se importar com a pilha de processos pendentes na justiça e dá um recado a seus adversários políticos: “eles podem tentar me derrubar, mas continuarei trabalhando pelo povo de Manquitolândia pelos próximos 50 anos”. A seguir, trechos da entrevista, concedida com exclusividade ao JT.

Na semana passada, o senhor ligou na redação para pedir a cabeça do nosso chargista. Isso não é uma afronta à democracia e à liberdade de expressão?

Ora, meu filho, o país sabe o quanto eu prezo pela democracia e pela liberdade de expressão — desde que, claro, não haja críticas a meu respeito… E enquanto aquele chargista corrupto continuar mentindo daquele jeito (me desenhando gordo, feio e careca), ele não terá estabilidade no emprego.

Bom, saiu na semana passada que o TSE pode barrar a sua candidatura baseado na lei Ficha Limpa. O que o senhor tem a dizer?

Isso sim, é uma afronta a liberdade de corrupção! Está lá, garantido na constituição, o direito de ir e vir… do meu dinheiro, no caso.

Falando em corrupção, o senhor foi flagrado comprando votos num vídeo no YouTube. Como explicar isso?

Ora, rapaz… Ficou claro que isso foi um esquema montado por meus adversários políticos para me prejudicar! Você ainda não percebeu isso?

Mas como poderia ser um esquema montado, se é o senhor lá, no vídeo, dando dinheiro e cesta básica em troca de votos?

Vou te explicar o que aconteceu: eles colocaram um homem igualzinho a mim lá e dublaram a minha voz no computador. Você sabe como é essa coisa de tecnologia hoje… Eles são capazes de tudo!

E sobre as acusações de nepotismo em seu gabinete, algum comentário?

Isso já foi resolvido. Liguei para a Henganilda, a minha sinhá, e mandei demitir o cachorro e o papagaio. Ora, onde já se viu?! Eu estava gastando uma fortuna da minha verba indenizatória só com ração e girassol…

Com tantas denúncias no currículo, por que o povo ainda vota no senhor?

Porque eu vim do povo. Fui uma criança paupérrima que, sozinha, dividia uma mansão de 16 quartos com meus pais e dois irmãos. E como grande conhecedor de nossa pobreza, sei das necessidades do povo. Se o povo quiser um saco de farinha, eu dou. Se o povo quiser uns carguinhos no meu gabinete, eu dou. E eles votam em mim. Não é maravilhoso? É uma troca…

Uma troca de favores, não é?

Olha, eu ia dizer que era uma troca de gentilezas… Aliás, se você fizer umas matérias simpáticas em relação à minha pessoa, posso conseguir o que você quiser. Tá precisando de alguma coisa?

Não, obrigado. Para encerrar, quando é que o senhor vai se aposentar?

Garoto, eu não saio daqui nem morto! E quando eu morrer, serei o funcionário fantasma de mim mesmo. Deu para entender?